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Ausência. Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor).
15/07/2021 21:14 em Opinião. Por Nilton dos Santos

Certa feita participei da criação de uma associação de proteção a crianças abandonadas.  A primeira reunião para tratar do assunto contou com a presença de mais de duzentas pessoas da comunidade. Mas apenas cinco foram os que assumiram compromisso na organização do projeto.

Como não podia integrar a diretoria em razão da minha função pública, falei a essas pessoas que a associação estava em suas mãos, e que elas representavam toda a coletividade.

Tudo estava certo. Conseguimos prédio, documentação, móveis e fundo financeiro para início das atividades. Mas agora o problema era formar a diretoria, pois o grupo de cinco tinha diminuído para um. Apenas um cidadão realmente comprometido. Numa cidade de 15 mil habitantes. Os demais foram saindo, um a um. Dos primeiros duzentos e poucos, nem notícia.

Curioso que esse cidadão que continuou firme já participava de cinco conselhos da comunidade e ainda era presidente do Rotary e da Associação Comercial. Senti vontade de chorar. Mas aprendi que encontrar um líder verdadeiro é tão difícil como achar um diamante de cinco quilos.

 Mudei de comarca e constatei que na nova cidade a situação era idêntica; entre vinte mil habitantes, pouco mais de uma dezena de pessoas são realmente comprometidas com causas sociais. As demais apenas criticam e cuidam de si mesmas.

Qualquer pessoa tem capacidade para ser líder. E todas têm alguma ideia sobre o que está faltando para melhorar a comunidade. Mas entre ter ideia e tomar atitudes práticas, entre ter capacidade para ser líder e sê-lo de fato, há uma gigantesca barreira chamada ausência.

Ausência injustificada na escola, na igreja, no cursinho, em encontros, conferências, reuniões e debates para colocar em prática algum projeto que possa mudar a situação das pessoas. E o esfriamento do ânimo nasce exatamente na primeira ausência, quando também as qualidades de bom aluno e de líder começam a definhar, desencadeando o processo de morte do projeto.

        Assisti a uma palestra em que o grande conferencista africano Robert Dudu usou a história do apóstolo Tomé para explicar como pode ser grande e irreversível o prejuízo provocado pela ausência a um único evento. O evangelista João refere que Tomé não estava com os discípulos quando Cristo apresentou-se a eles em reunião depois da ressurreição (Jo 20.24). Foi em razão dessa ausência que Tomé passou a duvidar não só da ressurreição, mas também dos demais discípulos que o haviam relatado a aparição de Cristo.

        Como a ressurreição era um estágio importante da missão salvadora, Tomé passou a duvidar do próprio projeto do Mestre, de sorte que dali em diante sua qualidade de líder ficou seriamente arranhada. Mas a ausência de Tomé na reunião resultou em algo ainda mais grave. São João relata que Cristo “assoprou sobre eles e disse: recebei o Espírito Santo”. Ausente, Tomé deixou de receber o sopro divino que representa o espírito de liderança e, enfim, a criação da vida espiritual em sua plenitude.

        Foi a única vez que Tomé faltou. Mas bastou para desencadear o seu processo de morte espiritual e também para colocar em dúvida a razão da causa que um dia abraçou com fervente paixão.

        Como Tomé, quase todas as pessoas costumam estar ausentes. Ausentes das reuniões da escola, do bairro, da igreja, dos conselhos comunitários e das entidades que cuidam dos direitos humanos, animais e meio ambiente.

        Numa cidade de cem mil habitantes, apenas umas vinte pessoas estão presentes. Os outros criticam e duvidam. Como Tomé, perderam completamente o espírito de liderança.

Por: Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor).

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