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Agricultura familiar desmotivada. Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor).
29/07/2021 20:45 em Opinião. Por Nilton dos Santos

Gostaria de parabenizar os agricultores pela passagem de mais um 25 de julho. Mas de que adianta fazê-lo, se só escuto suas fundadas queixas pelas dificuldades que enfrentam para conseguirem manter-se na atividade?

        Estou falando dos agricultores pequenos e médios, que cultivam menos de 400 hectares de terra, trabalham com a família e procuram conservar em parte aquela diversificação típica da verdadeira agricultura, explorando plantações comerciais diversas, produção de leite, animais de corte, e muitos ainda plantando para o consumo da família, tudo simultaneamente. Os grandes plantadores de monoculturas sequer podem ser chamados de agricultores; são empresários rurais.

        Mas por que os agricultores não têm o que comemorar?

        Primeiro, porque a atividade deixou de ser lucrativa. E a razão disso é o fato de terem ingressado no mesmo sistema de produção dos empresários rurais, seguindo um padrão de investimentos e despesas absolutamente insustentável. As empresas que vendem máquinas agrícolas, adubos, agrotóxicos, sementes transgênicas e outros insumos empurram quase à força essas coisas nos agricultores. Como é tudo fiado e a propaganda é irresistível, os agricultores acabam por endividar-se, comprometendo toda a safra vindoura para pagar esse pacote de tecnologia cara.

        O problema é que no ano seguinte tudo se repete. Os vendedores pressionam novamente, e os pobres agricultores, sem noção de gestão da propriedade, pensam que a solução é realmente uma tecnologia nova ainda mais cara.

        Não tenho dúvida de que faltam políticas públicas para auxiliar o colono na gestão de sua propriedade. A EMATER não ajuda mais nesse aspecto, por falta de pessoal e recursos financeiros. E a EMBRAPA está a serviço do agronegócio, dos empresários rurais.

        Mas, sinceramente, tem coisas que os agricultores poderiam ver que não dá certo, mesmo sem orientação de fora. Por exemplo, possuir 4 tratores com dezenas de implementos modernos, duas automotrizes e um caminhão para explorar apenas 70 hectares de terra. Está cheio desses exemplos por aí. Com esse aparato todo, é claro que a família vai produzir só para pagar a manutenção do maquinário e as prestações anuais da ceifa e dos dois tratores novos.

        Para plantar 70 hectares, basta um trator com cinco implementos e uma colheitadeira com 30 anos de uso.

        Deus livre esse agricultor de uma frustração de safra! Só que isso ocorre a cada dois ou três anos, infalivelmente. E aí tem que rolar as dívidas para frente. Por isso é comum ver agricultores com um capital de 5 milhões, entre maquinário e terra, mas sem dinheiro para tirar férias e comprar um automóvel novo.

        Em segundo lugar, os agricultores pequenos e médios não têm o que comemorar, porque nesse sistema equivocado de agricultura que praticam, empresarial, usam agrotóxicos de forma intensa. Os mesmos venenos empregados nas grandes plantações do agronegócio. Acontece que numa propriedade de menos de 400 hectares (média ou pequena), quem manuseia e aplica esses produtos químicos prejudiciais à saúde são os próprios agricultores e seus filhos. Não bastasse isso, ainda moram no meio das lavouras envenenadas. Por isso muitos deles já apresentam sérios problemas de saúde. Os grandes plantadores, os empresários rurais de verdade, moram nas cidades. E quem manuseia e aplica agrotóxicos para eles são seus empregados.

        Por fim, os agricultores não têm nada a comemorar, porque já começam a decepcionar-se com o novo governo federal, que se elegeu prometendo beneficiar diretamente a agricultura, mas não fala em subsídios para os pequenos e médios produtores. Não fala em garantia de preço mínimo que realmente preserve a lucratividade dos pequenos e médios, muito menos em políticas públicas voltadas à sucessão rural, para estimular os jovens a permanecerem no campo.

Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor).

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