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Tornando a lançar a rede. Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor)
19/08/2021 20:31 em Opinião. Por Nilton dos Santos

Andando de manhã pela praia, Jesus encontra alguns homens lavando suas redes de pesca. Estão fatigados por uma noite inteira de trabalho pesado em alto mar e, pior que isso, completamente desanimados por nada terem pescado. O Mestre conforta os pescadores com palavras que inicialmente não surtem efeito no sentido de aplacar a tristeza daqueles homens de semblantes rudes que se preparam para rumar a suas casas sem levar o sustento da família.

         Então Jesus entra num dos barcos, pede que o dono reme até um local de águas profundas, e diz: “lançai as vossas redes para pescar”. O proprietário do barco replica: “Mestre, trabalhamos durante toda a noite e nada pescamos, mas mesmo assim, sobre a tua palavra, lançarei a rede” (Lc 5.5). E apanharam tanto peixe que foi preciso reforço de outros barcos para retirar as redes.

         Jesus não era pescador. Como podia então ensinar regras de pesca a veteranos do ofício? Por isso a abordagem inicial de Jesus deve ter até irritado aqueles homens exaustos, que não viam o momento de atirar-se em suas camas e esquecer por algumas horas a malfadada noite. Não entendem a razão daquela intromissão. Também não entendem o resultado da intervenção do Mestre, tanto que um deles, tomado de espanto ao ver as redes cheias, chega a pedir que Jesus se afaste dali.

         Acontece que os experientes pescadores sabem que naquele local e naquela hora ninguém pega peixe, por isso pescavam durante a noite. Quem tem experiência de pesca no mar sabe que a maioria das espécies que vivem em grandes cardumes (e por isso se pega com rede), como sardinhas e arenques, abrigam-se dos predadores no fundo do mar durante o dia, saindo apenas ao cair da noite para alimentar-se.

         Espantam-se porque Jesus rompeu radicalmente uma lei natural de sobrevivência dos peixes e uma tradição humana que sabiam imutáveis. Para apanhar peixe naquela hora e naquele local não bastava aos pescadores conhecer profundamente o ofício da pesca. Só mesmo com a intervenção de alguém que conhece e sabe onde estão todos os peixes e é capaz até mesmo de conversar com eles. Não bastava saber todos os requisitos de uma pescaria exitosa ou dominar técnicas especiais da pesca desenvolvidas durante milênios.

         Mas as redes cheias revelam o poder infinito de quem tem o domínio sobre a vida, a organização e os instintos de todos os animais marinhos e seus respectivos predadores. Foi assim que os peixes, obedecendo a uma ordem do seu Senhor, emergiram em local errado, na hora errada, porque o que contava nesse momento não era a ordem natural da vida marinha, mas a ordem do Senhor do mar.

         A experiência da pesca milagrosa é apenas um episódio do ministério de Jesus a mostrar seu poder de tornar boa uma situação ruim. Sem nada a perder, os pescadores arriscam acreditar no Mestre (“sobre a tua palavra lançaremos as redes”). Isso se chama fé. Jesus veio ao mundo para romper paradigmas, quebrar as cadeias dos dogmas e libertar o homem da mesmice dos costumes e tradições. Basta que tenhamos fé na sua palavra, e toda uma história, toda uma tradição de sofrimento se esvai da nossa vida, transformando em alegria a situação que se mostra desagradável.

         Mas como ter fé nas horas difíceis da vida? E porventura a fé tem algum valor nas horas fáceis? Se os pescadores estivessem comemorando os barcos cheios sequer teria ocorrido o diálogo inicial com Jesus, e o milagre seria inútil. Portanto, a fé só tem sentido nas horas más, só opera na hora errada, na pessoa errada, no local errado. Porque pela fé Deus age por nós quebrando tradições que temos como certezas imutáveis. E torna boa a vida exatamente quando temos certeza de que tudo está perdido. A fé permite romper as ataduras que nos prendem ao desespero e à dor, libertando a vida para o sonho, a esperança e alegria.

Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor)

Imagem ilustrativa/reprodução internet

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