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Os animais e a cultura da crueldade. Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor)
01/07/2022 21:48 em Opinião

- Um bandido fica preso – e só por um tempinho - porque fez alguma coisa ruim. Mas que mal fez esse pobre bichinho pra passar a vida nessa gaiola?

         Essa indagação da minha esposa, enquanto saíamos de uma empresa agropecuária, é o que me motiva a escrever sobre a inominável crueldade das pessoas que mantêm pássaros presos.

         Os pássaros necessitam voar. Presos em gaiolas, são impedidos de exercitar essa função essencial da vida. E tirar-lhes a possibilidade de voar é o mesmo que destruir-lhes a vida.

         Só essa razão já basta para tornar repugnante, hedionda, covarde, a conduta humana de comprar e de vender pássaros.

         Estudando os hábitos dos pássaros comercializados em todas as cidades do Brasil, é fácil constatar que muitos deles necessitam voar por distâncias inacreditáveis. Alguns até centenas de quilômetros por dia. Outros são migratórios, chegam a mudar de continente uma vez por ano, voando sem parar por milhares de quilômetros. Precisam disso para viver. E assim contribuir para o equilíbrio da vida planetária. Da nossa, inclusive.

         Pássaros de hábitos gregários, que precisam viver em grandes bandos, são individualmente isolados em gaiolas. E comercializados a preço vil - de maneira que estão sujeitos à posse de qualquer pessoa. E levados da loja agropecuária para terminar a “vida” em sofrimento ainda mais atroz nas casas das pessoas. Pássaros que no primeiro acasalamento, no ambiente natural, escolhem um parceiro para convívio fiel por toda a vida, são brutalmente impedidos de cumprir esse desiderato divino. E sentenciados à solidão perpétua de uma gaiola.

         Pássaros que necessitam de sol e muita luz são trancafiados nas sombras dos estabelecimentos comerciais por meses até que apareça um comprador para levá-los a destino ainda pior.

         Outros, de hábitos noturnos, ficam expostos em vitrines iluminadas, miseravelmente privados da escuridão. E têm destino ainda mais cruel quando levados à casa do comprador.

         Chocam-me as justificativas para o injustificável e abjeto comércio de pássaros. “São exóticos”. Como se lá no país de onde vieram não fossem nativos. “Nasceram em cativeiro, estão acostumados com a gaiola”. Como se essa incomparável maldade desaparecesse pelo decorrer do tempo. “Não sabem mais viver na natureza”. Essa última é a pior. Roubar de um ser vivo o dom de viver naturalmente é pior do que matá-lo.

         Um amigo comerciante me sai com essa: “A lei brasileira permite”. Uma crueldade legal! Sim, muitas leis permitem a prática de condutas cruéis contra animais, porque os parlamentares simplesmente representam a sociedade, que se tornou culturalmente cruel com os animais. 

         Há pouco tempo estive palestrando para mil adolescentes evangélicos. Plateia fantástica! Um congresso. A vida era o tema. Aproveitei o enlevo do ambiente para expressar o que penso de pessoas que adquirem um animal para mantê-lo em gaiola. Também são culpadas por atrocidades que se cometem contra animais em todo o País. Muito mais que crime, um grande pecado. E acrescentei: não acredito que Deus está com uma família que mantém um bichinho em gaiola. Na verdade tenho certeza que Ele não está. Deus seria injusto se abençoasse ou cuidasse de alguém que prende um animal para “bonito”.

         A Resolução 1069/2014, do Conselho Nacional de Medicina Veterinária, obriga as agropecuárias a proporcionarem aos animais um ambiente livre de barulho, com luminosidade adequada, livre de estresse, com conforto e espaço para se movimentarem de acordo com as suas necessidades.

         Colocada em prática, essa norma poderia pelo menos amenizar o sofrimento de animais destinados ao comércio. E esvaziar gaiolas.

         Mas isso nunca foi colocado em prática. Porque a sociedade brasileira está doente. Prioriza o dinheiro sobre qualquer coisa. E o sonho de alguns veterinários e pessoas como eu não é suficiente para acabar com essa cultura infame.

Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor)

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