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A lição dos gansos. Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor)
08/07/2022 11:30 em Opinião

Os animais são pródigos em exemplos que garantem equilíbrio ambiental e qualidade de vida. Mas também nos ensinam como viver em sociedade.

          Os gansos selvagens, aves migratórias que precisam voar longas distâncias em busca de lugar seguro para procriar, exploram as leis da física para voar de forma confortável e rápida. Sempre em grupo, organizam no ar uma formação em “V” com o vértice (ponto que une as duas retas do “V”) para frente. Assim, a velocidade do voo aumenta em cerca de 70%, pois o bater de asas em conjunto rompe a barreira do ar com mais facilidade e cria um vácuo entre as duas fileiras, o que permite que as aves de trás planem e assim economizem energia.

          O ganso que puxa a frente precisa empreender maior esforço. Por isso de quando em quando ele troca de lugar com um dos que vêm na retaguarda. Os de trás, que estão mais folgados, voam grasnando para encorajar os da frente. Além disso, quando um deles não pode mais voar por doença ou ferimento provocado por caçador, um ou dois animais o acompanham no chão até que sare ou morra, integrando-se depois a outra formação que por ali passar.

          Do comportamento dos gansos podemos extrair duas belas lições: a) o trabalho em equipe é sempre mais eficiente e confortável, sendo indispensável na maioria das atividades humanas. Imaginem-se milhares de pessoas trabalhando isoladamente no resgate de vítimas de um grande terremoto. O efeito seria praticamente nulo; b) no grupo ninguém é menos ou mais importante, apenas a equipe deve aparecer, como algo indivisível.

          Quando perguntado sobre qual instrumento era mais importante na famosa orquestra sinfônica que regia, um grande maestro respondeu: “Qualquer um que estiver faltando”. Ocorre que não existe o todo enquanto falta uma parte, por pequena que possa parecer.

          Ao contrário do que fazem os gansos, os brasileiros (a começar pelos que se dizem líderes) de regra priorizam sua figura e atuação individual, desprezando o valor do todo, da equipe.

          O que me preocupa em relação a isso é que no Brasil a sociedade inteira enxerga os líderes políticos como responsáveis absolutos pelo bem estar de todos. Embora as autoridades públicas sejam meros representantes ou gestores dos interesses do povo, recebendo remuneração por isso, são vistas como benfeitoras abnegadas, merecedoras incondicionais de honrarias pessoais.

          Exemplo disso é o que ouvi outro dia de um cidadão: “Isso que é prefeito bom. Asfaltou quase todas as ruas”. E na imprensa encontramos todos os dias matérias como esta: “O deputado fulano mandou tantos mil reais para o hospital, para a escola ou para o projeto tal”. E o mais triste é que os políticos realmente conseguem votos por causa disso.

          Como se o dinheiro empregado em obras públicas fosse propriedade do prefeito ou do deputado. Como se qualquer obra pública não dependesse do trabalho árduo de uma grande equipe de funcionários.

          Só para comparar, se perguntarmos aos cidadãos europeus qual o político (prefeito, governador, deputado, vereador) que construiu esta ou aquela obra pública, ninguém saberá responder. Porque as pessoas de países desenvolvidos têm consciência de que as autoridades não passam de empregados do povo. Para elas, quem constrói o bem comum é o povo. Sempre em equipe.

          É lamentável que uma pessoa possa tirar proveito individual do que é realizado por todos, com o dinheiro de todos.

          Realmente nós, brasileiros, temos muito a aprender com os gansos selvagens.

Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor)

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