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Bicho do diabo. Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor)
29/07/2022 14:29 em Opinião

          Numa avenida da cidade, deparo-me com uma carroça de cavalo cujo carroceiro bate com toda a força com o cabo do relho na cabeça do animal. Furibundo, o homem ainda vocifera palavrões impronunciáveis. O cavalinho está caído e não reage minimamente a tamanha violência. Pelo telefone de emergência, minha esposa chama a polícia militar enquanto estaciono.

          Não me contenho. Mesmo sem a presença da polícia, decido abordar o homem, encorajado com a presença do populacho que no começo acreditei estivesse do meu lado.

          - Por favor, o senhor pare de bater nesse animal – arrisquei com firmeza. Não sem antes lembrar o meu pai, que ensinava do jeito dele aos filhos homens: “nunca tenham medo de enfrentar homem que bate em mulher, criança e animal, pois ele é sempre frouxo e covarde”. Deu certo. De pronto o homem interrompe a agressão, olha para mim e justifica:

          - Esse bicho do diabo não presta mais.

          Focinho cravado no asfalto escaldante, esquelético, olhos fechados, o cavalinho tostado emite um gemido baixo e profundo a cada vez que expele pelas narinas bolhas de ar misturadas com sangue. De cortar o coração.

          Em menos de cinco minutos do telefonema, chegam dois policiais, que primeiro passam a desatrelar o animal. Como já não fica em pé nem com a ajuda de nossas mãos, o bichinho é arrastado para uma sombra, onde permanece ofegante e agora estirado no chão como morto.

          Pensando em auxiliar a polícia na comprovação técnica do crime, lembro que tenho dois amigos na cidade. Ligo para o primeiro, que é veterinário, solicitando sua presença para confeccionar um laudo dos maus tratos. A resposta:

          - Amigo velho, não posso te ajudar, pois sou concursado da Prefeitura, e esse pessoal já está de olho em mim. Se eu entrar nessa confusão, posso ser transferido de setor. Mas vou mandar um colega.

          Ligo para o segundo amigo, um agente do Ibama, que me explica afobado:

          - Infelizmente não posso fazer nada, pois não disponho de bloco de multa. Isso é só com Santa Maria.

          Nisso uma moça me passa os contatos de duas ONGs da cidade. Respiro aliviado, pois agora pelo menos temos onde colocar o animal. Ligo para a primeira, cujo responsável sai com essa:

          - Olha, nós lidamos mais com teoria, nossa finalidade é conscientizar a sociedade sobre a necessidade de proteção do meio ambiente. Mesmo eu não poderia ir até aí, pois não posso me expor assim, sou agrônomo de uma empresa,.

          A responsável pela segunda ONG, professora universitária, já não é tão reticente:

          - Nossa associação realmente é de proteção aos animais, mas é mais de cachorro abandonado. Não temos espaço para receber um cavalo.

          Há quase meia hora os policiais anotam em silêncio as dezenas de feridas pelo corpo do animalzinho. As patas em frangalhos, todas sangram. Ferimentos recentes, do dia anterior, da semana passada, do mês passado, pisaduras dos arreios sobre feridas antigas que voltaram a sangrar etc. Uma ferida velha do lombo sangra mais copiosa. Acontece que, quando retirada a peiteira, toda remendada com pedaços de arames enferrujados, saiu junto com o petrecho uma ponta de arame grosso que jazia encravada no meio da ferida.

          Chega o tal colega do meu amigo veterinário. Acompanhado do advogado da Prefeitura, o homem grita quase desvairado:

          - Isso é uma pouca vergonha, me tirarem do serviço por causa de um matungo velho, um bicho inútil!

          Mas a fúria do médico de animais é aplacada quando o matreiro causídico sussurra algo em seu ouvido. Agora manso, mas inspirado na mesma ética pessoal perversa, o veterinário me diz:

          - Me desculpe, doutor, não sabia que o senhor é promotor!

          Mas o pior está por vir. Desce de um carrão bonito uma senhora grisalha, polida e bem falante. Uma protetora dos animais, julgo esperançoso. Não. Mas bem religiosa; fala em Deus a todo instante.

          - Gente, pelo amor de Deus, esse homem é um cidadão de bem, um servo de Deus e pai de família, sempre faz frete para mim com essa carroça.

          Seguem aplausos efusivos da claque.

          Com a notícia de que o animal deve receber folga até que se recupere, a mulher passa a recolher doações em dinheiro para o agressor, que é visto bebendo num bar no fim da tarde.

          Bicho do diabo! Bicho inútil! Isso ainda me martela na alma. O homem também é um bicho. De Deus?

Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor)

 (Foto ilustrativa reprodução Departamento de Bem-Estar Animal).

 

 

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