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Ciência e Política contra a vida. Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor)
19/08/2022 16:29 em Opinião

Ciência e Política contra a vida

 

          A chamada revolução verde ocasionou uma diminuição brutal das variedades de plantas cultiváveis. Os agricultores abandonaram as variedades tradicionais e passaram a plantar culturas mais rentáveis e infinitamente mais sensíveis às doenças e aos insetos.

          Segundo o Dr. H. K. Jain, importante intelectual indiano do tema, antigamente os camponeses cultivavam mais de trinta mil variedades diferentes de arroz. No entanto, com a moda das variedades de elevado rendimento, calcula-se que durante o século XXI apenas umas cinquenta variedades serão ainda cultivadas, e dessas somente dez ocuparão 75 por cento das sementeiras. Com uma tão grande erosão genética, a agricultura tornou-se uma atividade de alto risco (AGARWAL, 1993, p. 350).

          Até os anos 70, quando a agricultura industrial tomou conta do mundo, cada espécie de planta tinha milhares ou mesmo centenas de milhares de variedades, nalguns casos cultivadas só por uma família [...]. Hoje, apenas quatro variedades de arroz alimentam a maioria da população humana, e na Índia estima-se que sobrem talvez 10% das variedades tradicionais.

          O que aconteceu com o arroz ocorre também com todas as espécies de plantas essenciais para a sobrevivência humana. Nos últimos 40 anos, as variedades tradicionais foram sendo substituídas por uma pequena quantidade de híbridos, muito dependentes de agrotóxicos e nutrientes químicos.

          A maioria das sementes comerciais pertencem a menos de dez empresas, todas gigantes da agroquímica, que controlam os mercados mundiais das sementes comerciais convencionais, sementes transgênicas e os agroquímicos que sustentam a sua produtividade. Essas poderosas empresas influenciaram os governos do mundo inteiro a restringir severamente, através de leis, a livre circulação e reprodução de sementes. Hoje é praticamente impossível um agricultor guardar sementes em casa. Isso representa um grande desastre para a vida planetária,

          Ora, a natureza é algo dinâmico, que está em constante adaptação/evolução, o que ocasiona, de quando em quando, a substituição natural de espécies de plantas e animais por outras, e até mesmo o desaparecimento puro e simples de certas formas de vida. Entretanto, o que não pode, sob pena de claro risco de um colapso da vida planetária, é que o desaparecimento ou o surgimento de determinadas formas de vida tenham origem antropogênica. Em outros termos, plantas e animais podem desaparecer, assim como também podem surgir, desde que isso não aconteça pela mão do homem.

          No caso das sementes de alimentos tradicionais, com elas não desaparecem apenas variedades de arroz, leguminosas ou hortaliças, mas também milhares de espécies de ervas daninhas, pássaros, insetos (borboletas, lagartas, besouros, joaninhas, abelhas, vespas, pulgões etc.) e roedores seletivos que se alimentam daqueles vegetais, de suas flores ou de suas sementes.

          Em nome do que os governos vêm permitindo esse risco tão acentuado de desequilíbrio ambiental? Primeiro, foi em nome da necessidade de alimentar o mundo. Desaparecem milhares de espécies vivas importantes, mas conseguimos erradicar a fome, já que, segundo antigas previsões estatísticas, o ritmo da produção tradicional, orgânica, não daria conta da demanda por alimentos no mundo, e então muita gente passaria fome. Hoje, quando a fome está absolutamente fora de controle, apesar do poderio imperial das empresas transnacionais de alimentos transgênicos, fertilizantes e pesticidas, a justificativa para continuar com esse modelo perverso e suicida de produção agrícola é o PIB que deve crescer a qualquer custo (nem que seja ao custo da vida).

          Sem dúvida, estamos diante de um problema global sem precedentes: vivemos o risco real de um colapso socioambiental. E parece não haver qualquer perspectiva de saída, pois a biotecnologia agrícola se juntou à política para produzir PIB, apenas. Em detrimento da vida.

Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor)

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