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No mar da vida. Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor)
26/08/2022 19:48 em Opinião

Certa feita Jesus mandou que seus discípulos passassem sozinhos para o outro lado do mar, em um barquinho que não oferecia o mínimo de segurança em caso de temporal. Isso se dá logo após a grande tempestade enfrentada por eles em alto mar, quando tiveram de pedir ajuda ao Mestre, que dormia no porão do navio.

         No começo os discípulos se recusam a cumprir a ordem. Creio que argumentaram assim: “se com o Senhor no barco já passamos aquele sufoco, imagine agora sem a sua companhia! Não iremos”. Mas Jesus insiste, e eles cedem. Não deu outra. Novo temporal.

         O que mais me chama a atenção nesse episódio é o fato de Jesus ter insistido com os discípulos para que atravessassem sozinhos o mar turbulento. Algumas versões da Bíblia chegam até mesmo a afirmar que Jesus obrigou os discípulos à perigosa travessia. Isso sugere duas coisas bem claras: a) o Mestre queria mostrar que entrar no barco e navegar, apesar de ser perigoso, é tarefa obrigatória e exclusiva do ser humano; b) mas, na hora em que tudo parece perdido (e só nessa hora), Ele chega para acalmar a fúria do mar.

         Deus insiste e às vezes obriga a lançarmo-nos nas águas sempre agitadas do mar da vida sem que tenhamos a mínima ideia do que acontecerá logo ali adiante. E fazemos isso porque Ele próprio plantou em nós um sonho. Um sonho de vencer na vida, de crescer, de multiplicar ações que transformam o mundo, de inventar, de produzir, de aprender coisas novas e viver experiências novas.

         Tudo na vida se resume a sementes e colheitas. O sonho é a semente. Todavia, para que essa semente se transforme em colheita, é necessário que nos atiremos ao mar e naveguemos. Navegar, correr risco, é o nosso trabalho, única maneira de chegarmos à colheita, que está sempre do outro lado. Navegar é tomar atitudes por fé, é colocar o sonho em prática, é iniciar projetos sem ainda ter certeza do que acontecerá de concreto lá do outro lado ou mesmo durante o processo da travessia.

         Não havia na terra pessoas que pudessem sonhar mais alto do que os discípulos. Sim, veja só o que eles desejavam: instalar o reino de Deus entre as nações! Mas isso jamais ocorreria se permanecessem apenas sonhando; era preciso atitude por fé, era preciso navegar muito, e isso nem Deus faria por eles, e não faz por ninguém. O trabalho de navegar no mar perigoso era exclusivo dos discípulos. O Mestre insiste e até os obriga a isso. Eles não queriam aventurar-se no mar, pois não tinham coragem para correr tamanho risco, não tinham fé. Mesmo assim iniciaram a travessia. Foi difícil. Em certa altura, quando a tormenta já encobria o barco, estavam tão fracos na fé que sequer reconheceram Jesus, que vinha para livrá-los. Mas continuavam cumprindo a tarefa de remar. E foi só por isso que adquiriram fé e coragem exatamente no meio da pior crise.

         Quantas vezes sentimos uma vontade imensa de iniciar um projeto ousado. É a semente do sonho querendo brotar. É Deus insistindo para que passemos ao outro lado, para que comecemos a colocar nossos sonhos em prática. Isso é fácil? No início não. Dá medo, é difícil, inseguro, perigoso. Para piorar a situação, nessa hora surgem pessoas aconselhando a mudar de ideia, a desistir do sonho. Mas se o nosso foco estiver no projeto sonhado, assim que começarmos a realizar ações no sentido de concretizá-lo, Deus também começa a agir em nosso favor. Não que a travessia passe de repente a ser fácil e segura; os perigos continuam. Mas agora nossa fé nos torna fortes e afasta o medo. As ondas de problemas que já encobriam nosso barquinho agora são pisadas por Aquele que acalma a fúria do mar e nos encoraja a prosseguir.

Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor)

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