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História dos passarinhos. Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor)
05/09/2022 20:14 em Opinião

A maldade humana está em toda parte. E se apresenta das mais variadas formas. Ontem vi algo chocante em uma loja agropecuária da cidade. Num canto escuro, um passarinho amarelado cantava sem parar numa minúscula gaiola. De perto, observei que havia um papel colado na grade da pequena prisão, onde estava escrito: VENDIDO.

         É mesmo de cortar o coração! Um passarinho que precisa viver em bando e voar centenas de quilômetros por dia, trancafiado sem defesa. Sozinho. Sem poder voar.

         Indescritível e imperdoável a maldade de quem faz isso. De quem vende, e de quem compra. Pensando nessa crueldade, veio-me a letra da música “História dos passarinhos”, do velho Gildo de Freitas:

 

“Eu inventei um passeio,
Num domingo bem cedinho.
Peguei o meu violão,
E fui pra o mato sozinho.
Descobri uma figueira,
Com os galhos cheios de ninhos,
E passei a manhã inteira,
De baixo dessa figueira, apreciando os passarinhos.

Como eu tava achando lindo
O viver dos passarinhos!
Se via perfeitamente
Vir com fruta no biquinho,
Se via quando eles davam no bico do filhotinho.
E eu ali estava entretido,
Com o viver tão divertido da vida desses bichinhos.

Daí chegou um senhor, e com ele um gurizinho,
E este tinha uma gaiola, e dentro dela um bichinho.
Perguntei que bicho é esse,
Disse ele é um canarinho.
Com esse bicho que está aqui,
Nas florestas, por aí, eu caço qualquer passarinho.
Cantava que redobrava,
Aquele pobre bichinho.
Parece até que dizia:- É triste eu viver sozinho! Só porque eu fui procurar comida pros filhotinhos. Fui entrar nesse alçapão... Hoje estou nessa prisão, e nunca mais fui no meu ninho.

Aí eu fui recordando o que já me aconteceu.
Há muitos anos atrás, a polícia me prendeu,
O juiz me condenou, e depois de mim se esqueceu.
Eu pelo rádio escutava, quando os colegas cantavam, e aquilo me comoveu.

Então eu fui perguntando quanto quer pelo bichinho.
Respondeu ele, eu não vendo,
Eu cacei pra o meu filhinho.
Porém saiu uma voz da boca do gurizinho,
A gaiola custou 10, quem me der 20 mil reis, pode levar o passarinho.

Comprei com gaiola e tudo, para evitar discussão.
E fui abrindo a portinha,
E abrindo meu coração.
E o bichinho foi saindo,
E eu peguei meu violão,
Num versinho eu fui dizendo,
O que tu estava sofrendo, eu já sofri na prisão.
Quem vai caçar de gaiola,
Pra ver os bichos na grade,
Deveria ser punido pela mesma autoridade,
Porque o coração dos bichos
Também conserva amizade.
Oh, lei, faça o que puder,
Mas um bicho também quer ter a mesma liberdade.”

Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor)

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