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Sonho de paz. Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor)
16/09/2022 20:47 em Opinião

 

Passei a gostar de música clássica frequentando o Teatro São Pedro aos fins de tarde quando estudava em Porto Alegre. Década de 1990. Um amigo que cursava Filosofia na UFRGS me contou de um projeto desenvolvido por um grupo de senhoras sócias do Teatro, que consistia na exibição de vídeos de concertos em um telão. A apresentação era acompanhada de uma aula sobre a música do dia, com explicações agradáveis feitas por aquelas senhoras cultas e alegres. Tudo de graça. Que tempo bem aproveitado! Isso me ajudou imensamente no rendimento dos estudos, e ainda me proporcionou o gosto por ouvir música erudita todos os dias. Hábito que jamais desejo perder.

        Foi numa dessas proveitosas oportunidades que tive contato com a história de vida e o talento de um dos maiores maestros do mundo, chamado Daniel Barenboim. Filho de pais israelenses, esse respeitado pianista e maestro nasceu em Buenos Aires e hoje mora em Berlim, onde lidera um projeto fantástico pela paz mundial.

        Barenboim não é um sonhador comum. Ele tem o dom de sonhar com o impossível. E hoje realiza com êxito um projeto humanamente impossível. Formou a orquestra West-Eastern Divan, composta por jovens músicos árabes e judeus. Não há no mundo um só líder capaz de juntar Israel, Palestina, Jordânia, Egito, Irã, Líbano, Turquia e Síria. Exceto Daniel Barenboim. Ele levou para Berlim 120 jovens desses países. Países cuja principal política de Estado são a intolerância religiosa e racial. Países em que a guerra e o terrorismo parecem ter destruído para sempre a alteridade, o diálogo e a possibilidade de convivência pacífica entre diferentes.

        Em português, West-Eastern Divan significa “divan oriental e ocidental”. Segundo o Maestro, é preciso lutar para curar as históricas feridas socioculturais que dilaceram a alma dessas nações. Como descendente de judeus vítimas do nazismo, Barenboim reconhece que não poderia sequer viver na Alemanha não fosse a luta permanente dos próprios alemães para garantir que a barbárie nazista nunca mais volte. Então ele desenvolve esse projeto exatamente na Alemanha, que um dia foi de Hitler, que quis exterminar os pais dos componentes da Orquestra, antes que esses brilhantes músicos nascessem. Tão somente porque eram judeus ou muçulmanos.

        A West-Eastern Divan Orchestra é para mim a mais importante orquestra do mundo. Além da beleza e da energia da juventude, ela reúne muito talento, técnica musical e esforço incontido de seus membros para permanecerem unidos como irmãos e amigos, mesmo que seus próprios familiares discordem dessa amizade e parceria. Mas não é só. Essa notável orquestra reúne também muitos sonhos. Que se somam ao grande sonho do Maestro: o sonho de paz entre árabes e judeus.   

        Em uma palestra para estudantes universitários há poucos dias, abordei esse assunto e exibi no telão um vídeo da West-Eastern Divan Orchestra tocando a Sexta Sinfonia de Beethoven. Foi emocionante. A palestra era sobre meio ambiente, e essa extraordinária Sinfonia retrata o prazeroso sentimento de poder desfrutar da natureza em seu estado mais puro e perfeito. Essa música espetacular, que para mim é a mais bela, profunda e completa criação de um ser humano, carrega uma peculiaridade: seu compositor, Ludwig Van Beethoven, estava completamente surdo quando milagrosamente compôs essa maravilha.

        A Orquestra de Barenboim já gravou todas as 9 sinfonias de Beethoven. E se apresentou em quase todas as capitais do mundo. Mas alguns países árabes, de onde saíram muitos de seus componentes, ainda proíbem que ela se apresente em seus territórios. Por intolerância racial e religiosa. Só que isso, para Barenboim e seus seletos alunos, não é o suficiente para impedir o principal: o sonho. O sonho de tolerância. De fraternidade. De paz.

Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor)

 

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