Volume
Rádio Offline
Redes
Sociais
O Filho. Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor)
04/11/2022 20:49 em Opinião

Conta-se que um homem conseguira juntar uma verdadeira fortuna em obras de arte. Como também pinta quadros, passa horas do dia em seu atelier, lugar preferido também de seu único filho, que antes de aprender a caminhar já pintava seus quadros com entusiasmo ao lado do pai.

         Sobram planos para o futuro. Da parte dos dois. No atelier, durante o jantar, nas viagens, nas conversas por telefone, o assunto entre pai e filho é um só: pinturas.

         Para descrever com mais precisão a personalidade dos dois, melhor defini-los como sonhadores. Dois grandes sonhadores. Nas mentes deles, tudo se transforma em quadro. Cidades, rios, casas, árvores, passarinhos, vacas, pontes, pessoas... Não é exagero afirmar que ambos precisariam de umas dez vidas de 90 anos para conseguirem materializar em quadros tantas imagens belas que presenciam todos os dias.

         O tempo passa. Depressa. Especialmente para essa dupla de apaixonados pelas artes. E pela vida. Chega o dia em que o filho precisa se ausentar de casa. Vai para o Exército.

         A despedida é dolorida.

         - Um ano passa rápido, meu filho – diz a mãe.

         Não para o pai, que na tela da mente já tem pronto o quadro mais triste de sua vida: a sala de pintura sem a presença do filho. Um ambiente sem graça. Sem vida.

         Mas o pior está por acontecer. Meses depois, o filho é convocado para a guerra. Em outro país.

         O jeito é suportar. O pai encontra força na pintura. E no gesto de contemplar os quadros pintados pelo filho.

         No começo, de quando em quando uma carta. Depois de dois anos, nenhuma notícia.

         Seis longos anos se passam depois do triste dia da despedida. A guerra acaba. Mas nada de notícia do filho.

         Certo dia, ao toque da campainha, uma surpresa. Não é o filho, como pai e mãe esperam dia e noite; mas um colega dele, que chegara da guerra.

         - Senhor, eu sou o soldado por quem seu filho deu a vida – dispara o rapaz. – Fui ferido na batalha e ele estava me levando a um lugar seguro quando uma bala de fuzil lhe acertou o peito. Morreu na hora. Ele falava muito do senhor e de seu amor pela arte.

         - Vim entregar-lhe essa tela que pintei. Também gosto de artes, por isso me acertei tão bem com seu filho – diz o soldado, passando o quadro às mãos do homem.

         É um belo retrato do filho, pintado poucos dias antes da sua morte.

         - Quanto custa? – pergunta o pai, contemplando o desenho com o rosto banhado em lágrimas.

         - Nada.  Eu nunca poderia pagar-lhe o que seu filho fez por mim. Esta pintura é um presente.

         O pai então coloca a tela ao lado de suas grandes obras de arte. E passa a exibir com orgulho o retrato do filho a cada visitante da sua famosa galeria.

         Com a morte do pai, anuncia-se um leilão de todas as obras da coleção. Gente rica de vários países comparecem ao evento.

         - Começamos com o retrato “O FILHO” – grita o leiloeiro, depois de fazer a plateia silenciar. – O lance inicial é livre. Alguém oferece algum valor?

         Uma voz impaciente quebra o silêncio:

         - Queremos ver as pinturas famosas!

         O leiloeiro insiste:

         - Alguém oferece algo por essa pintura?

         Outra voz, que não esconde sinais de irritação:

         - Não estamos aqui por pintura desconhecida. Começa logo com Van Gogh, Picasso...

         Mas o leiloeiro insiste:

         - O FILHO! O FILHO! Quem leva O FILHO?

         Finalmente a voz tímida do jardineiro da casa:

- Eu dou 10 dólares pela pintura.

Sem outros interessados, o leiloeiro bate o martelo e informa:

- Sinto muito, mas o leilão está encerrado. Há um testamento estipulando que somente a pintura "O Filho" seria leiloada. E quem a adquirisse, herdaria todas as posses deste homem, incluindo as pinturas.

A história ilustra com precisão o que acontece no Reino de Deus. Na Bíblia está escrito: “Quem tem o Filho de Deus, tem a vida; quem não tem o Filho, não tem nada (1 Jo 5.12).

Não estou falando de religião. Ter o Filho de Deus no coração não significa ser cristão. Católico, evangélico etc. É apenas demonstrar amor ao próximo e a Deus, como ensina o Mestre. Amar o próximo é apenas ajudar o necessitado sem esperar nada em troca. Amar a Deus é apenas cuidar das coisas dEle, da Obra da Criação, que é o meio ambiente. Como é fácil, simples e bom pertencer ao reino de Deus! 

Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor)

COMENTÁRIOS
Comentário enviado com sucesso!
PUBLICIDADE