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O principal. Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor)
09/12/2022 16:23 em Opinião

Como teste para poder casar com a filha do rei, um jovem recebe do próprio pai da moça a incumbência de viajar a cavalo por vários dias a fim de entregar uma mensagem escrita e um saco de diamantes ao rei do país vizinho. Selou um dos cavalos do reino, tomou os pertences de viagem, o saco com o tesouro e o envelope com a mensagem, montando apressado no animal.

         Já havia dado voz de partida ao cavalo quando um empregado do palácio se aproxima gritando:

         - O rei manda que se apresente a ele antes da partida.

         Em um minuto está diante do trono, reverente e curioso. Mas o soberano pronuncia apenas uma frase:

         - Só estarás apto a casar com minha filha se durante a viagem cuidares bem do principal.

         E deseja boa viagem depois de olhar bem nos olhos do moço.

         Sempre pensando naquela frase do rei, o rapaz exagera no cuidado com as pedras de diamante. Prende-as com segurança na perna por debaixo da roupa, pois assim, além de ficarem imunes aos olhos dos salteadores, cairiam dentro da bota caso se desprendessem.

         Para concluir o mais rápido possível a missão, açoita sem parar o cavalo e toma atalhos pedregosos que machucam os cascos do animal. E de tanto que cuida do saco de diamantes, não sobra tempo para dar água e comida ao cavalo.

         Nem na metade da viagem, e o animal já está trôpego em razão da fome e da sede, sem falar nas pisaduras do lombo e ferimentos dos cascos.

         Um transeunte avisa:

         - Moço, esse cavalo está morrendo. Se não passar a cuidá-lo, ficará a pé.

         Em vão. O rapaz apenas meneia a cabeça com desdém, e segue pensando: “o que importa é cuidar do principal”. E golpeia impiedoso o animal, em intervalos cada vez mais curtos.

         Fim da viagem. O cavalo está tão cansado e machucado, que cai de joelhos assim que pisa no pátio do palácio.

         O próprio rei é quem sai para recebê-lo. Toma as joias e a mensagem das mãos do rapaz, e analisa vagarosamente todas as feridas do cavalo, sem nada dizer.

         Depois toma um papel, escreve alguma coisa, e o entrega ao jovem, dizendo:

         - Leve isto para o rei da tua terra. Mas vá a pé; o cavalo ficará para que possa ser tratado dos ferimentos.

         Depois de vários dias de sofrida caminhada, o rapaz finalmente entrega a carta ao seu senhor, que depois da leitura sentencia:

         - A mensagem que acabei de ler me informa que durante a viagem você não cuidou do principal, como te ordenei. Além de chegar todo estropiado, o cavalinho estava debilitado por ter passado fome e sede na tua mão. Não casarás com minha filha, pois quem faz maldades para os animais também o faz para as pessoas.

Ao longo da história, os seres humanos cometeram muitos erros. Alguns tão grandes, que provocam arrependimento e vergonha em toda a humanidade. Por exemplo, as perseguições com torturas e mortes por causa de ideias diferentes; guerras com extermínio de milhões por motivos étnicos ou religiosos; degradação ambiental com a extinção de espécies inteiras de plantas e animais.

Mas o maior dos erros que o homem já cometeu foi ter, nos últimos séculos, passado a entender que é superior aos outros seres planetários. Que pode subjugar toda a obra da Criação ao seu interesse. Assim, o homem rompeu seus laços afetivos com a natureza e passou a ver a terra não mais como a grande mãe universal, mas como mero objeto para satisfação de suas necessidades materiais. Ele não vê a terra como seu habitat, como uma fonte de vida, como um meio de produzir comida e bem estar, mas como meio de produzir dinheiro, apenas.

         O principal para o homem moderno não é a vida. Nem a dele próprio. É o dinheiro.

Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor)

 

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