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Quando o brilho incomoda. Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor)
19/01/2023 20:46 em Opinião

Mexendo em meus livros antigos, encontrei uma fábula interessante. É assim: não mais suportando a perseguição da cobra, um dia o vagalume resolve travar um diálogo com ela. E pergunta:

         - Por acaso eu te fiz algum mal?

         - Não, você nunca me fez mal, nem tem capacidade para isso, pois você é uma figura frágil e pacífica – respondeu a cobra.

         Mais confuso ainda sobre a razão da perseguição da cobra, o vagalume continua:

         - Eu faço parte da tua cadeia alimentar?

         - Jamais – responde a cobra. - Eu gosto mesmo é de comer pequenos roedores, alguns tipos de rãs e passarinhos, mas não insetos. Outra coisa, se cobras comessem insetos, com certeza tu serias o último da lista por causa do teu cheiro e do teu gosto horríveis.

         - Mas então, por que você quer me comer? – insiste o vagalume.

         - É só por causa dessa tua luz. Não fosse esse brilho irritante, juro que sequer te notaria.

         As fábulas são uma modalidade de literatura voltada a ensinar, a advertir, a exortar, enfim, a produzir uma lição de efeito moralizador. Da história da cobra e do vagalume podemos facilmente colher uma lição importante sobre a inveja. Não no sentido de extirpá-la da sociedade, mas de vencê-la, de suportá-la. A moral dessa fábula é essencialmente igual à do ditado que diz “só se joga pedra em árvore que tem frutos”. Foi o que o vagalume concluiu: “só é perseguido quem brilha”.

         Quando Cristo referiu que todos os seus seguidores deveriam ser a luz do mundo, de certa forma estava também dizendo: “Mas cuidado, exatamente por causa dessa luz vocês serão perseguidos”.

         Mas o que vem a ser a luz do mundo? Com certeza nada tem a ver com o que a maioria das pessoas acham. Nada tem a ver com a forma de se vestir, de arrumar o cabelo ou de comer. Nada tem a ver com religião ou com igreja. Enfim, ser luz do mundo não é algo exterior; é algo ligado ao caráter.

Como a luz do vagalume, a nossa luz tem que vir de dentro, do âmago do nosso ser. E os atos bons que praticamos são apenas manifestações da transformação pela qual passamos quando decidimos brilhar como Cristo, praticando o que Ele ensinou.

Mas essa luz do bem às vezes incomoda, suscita inveja por parte de quem está do lado do mal.

         O sentimento de inveja é devastador para a vida em sociedade, e sempre acompanhou os seres humanos. No começo da Bíblia já encontramos a história de um homem chamado Caim, que matou seu irmão simplesmente porque este havia cultuado a Deus de forma mais dedicada do que ele. O motivo do homicídio foi exclusivamente a inveja.

         Mais adiante, a Escritura Sagrada relata a história de um moço (adolescente) chamado José, que por causa da inveja foi alvo de agressões covardes por parte de seus irmãos. Primeiro tentaram matá-lo, depois o venderam a um estranho para servir de escravo em outro país, longe dos pais, amigos, enfim, provocaram uma verdadeira tragédia na vida desse adolescente. Tudo porque José ocupava uma posição de destaque na família, ou seja, brilhava mais do que seus irmãos, e isso os incomodava.

         Nem seria necessário procurar na Bíblia exemplos dessa natureza. Todos nós já tivemos contato com situações em que uma pessoa inocente, que só faz o bem, é injustamente criticada por defender uma ideia boa que interessa a toda a comunidade. Quantos são perseguidos por defender os animais, por defender as árvores, por lutar contra a poluição das águas, por lutar contra o desmatamento, por defender os direitos humanos dos mais fracos (crianças, idosos, índios, pobres e mulheres vulneráveis).

         Mas esse mundo é mesmo assim. E bem aventurados os que sofrem por essas causas, disse o Mestre, pois isso é sinal de que estamos com Deus. Continuemos brilhando, mesmo que nossa luz incomode.

Por Nilton Kasctin dos Santos (Promotor de Justiça e Professor)

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