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Retratos da paz. Por Nilton Kasctin Dos Santos
19/03/2020 23:29 em Opinião. Por Nilton dos Santos

          Para decorar a sala do trono, o imperador manda contratar dois artistas famosos para pintar um quadro representando a paz.

         O primeiro pintor desenha um lago imenso cravado entre duas gigantescas cordilheiras de rochas. Com centenas de metros de profundidade, as águas são amareladas em razão das substâncias vulcânicas que jazem nas profundezas. O lago é resultado de uma imensa cratera originada de uma erupção vulcânica ocorrida há quinhentos anos.

         O cenário é de silêncio absoluto. Sem vento, sem pássaros, sem peixes. Nenhum barco sobre o espelho d’água. Na ribanceira sem árvores, sobre a rocha desnuda, apenas alguns monges em posição de reverência a meditar. Devem ser do mosteiro cuja silhueta se divisa no topo do monte vizinho.

         A pintura do outro artista mostra uma imensa cachoeira de um rio volumoso. Em velocidade assustadora, bilhões de litros de água desbordam do precipício a cada segundo. O estonteante azulado que se contempla a poucos metros acima, rapidamente dá lugar a um tom esbranquiçado assim que a água começa a cair. O vai e vem de turistas para desfrutar do espetáculo é incessante. Milhares de pessoas por dia. O barulho é ensurdecedor. Enquanto brilha o sol, de todos os lados é possível apreciar vários arco-íris simultâneos. Peixes de todos os tamanhos e espécies brincam saltando na brisa fresca formada pelo turbilhão de água que despenca livre paredão abaixo. Mesmo os peixes de escamas opacas exibem um brilho fascinante quando surgem na garoa branca entrecortada pelos raios do sol. Andorinhas, martins-pescadores e borboletas de todas as cores completam a maravilha do cenário. O terreno fértil das barrancas sustenta uma vigorosa floresta ciliar cheia de animais nativos de todas as espécies. Nas margens, galhos de árvores e plantas menores que tocam o rio balançam sem parar no ritmo do bailado turbulento das águas.

         E um pequeno beija-flor repousa tranquilamente sobre o ninho pendurado num galhinho que pende no penhasco bem em cima da queda d’água.

         O pintor da segunda paisagem transmite com clareza a ideia de que todas as pessoas que visitam a exuberante catarata levam consigo duas certezas: o cenário é incomparavelmente belo; mas extremamente perigoso. Para contemplar toda essa maravilha, ninguém ousa chegar muito perto.

         Já o quadro que mostra o lago profundo não indica nenhum sinal de que ali possa haver perigo. Tudo parece calmo, tranquilo e absolutamente seguro.

         Sim, o perigo está presente nas duas paisagens. Só que no primeiro quadro ele é invisível. O lago é venenoso. Conforme o ciclo lunar ou a movimentação (oculta) do vulcão nas profundezas, as águas podem matar pela liberação de gases tóxicos. Por isso a ausência de peixes, pássaros e outras formas de vida. É possível também que o vulcão entre em erupção repentinamente, tragando de surpresa quem se aventure a navegar no lago.

         Mas o perigo da cachoeira jamais irá surpreender, pois ele pode ser visto e sentido a todo instante e de longe. Por isso o beija-flor mantém seu ninho em um galho que balança sobre o precipício. Ele sabe que logo abaixo está um grande perigo; mas ali continua em plena paz, pois sabe também que a água jamais irá alcançá-lo.

         Cristo disse: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou. Não vo-la dou como o mundo a dá” (Jo 14.27). A paz de Cristo está representada no segundo quadro. Uma paz que permite conviver com o mal sem com ele contaminar-se. A paz verdadeira, como a do beija-flor, que dormita seguro a poucos centímetros do perigo.

         O primeiro quadro retrata a paz do mundo. Tudo é calmo e seguro. Mas só na aparência. Por trás dos momentos de prazer e felicidade de uma vida sem Deus se escondem a desilusão, a dor, a tristeza, a solidão e a morte, que podem atacar de surpresa e sem piedade a qualquer instante.

 

Por NILTON KASCTIN DOS SANTOS, PROMOTOR DE JUSTIÇA E PROFESSOR

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