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O mau samaritano. Por Nilton Kasctin dos Santos (Professor e Promotor de Justiça)
04/02/2021 22:30 em Opinião. Por Nilton dos Santos

Ouvi essa história triste em um programa de debates no rádio:

         - Hoje de manhã meu cachorro veio correndo e largou um bicho na porta da minha casa, Um gambá. Estava como morto, salpicado de sangue, mas ainda respirava. Pensei em chamar a polícia ambiental, mas aí lembrei que esse tipo de animal costuma se fingir de morto. Então botei minhas luvas, pus o bichinho em um saco plástico, amarrei bem pra não ficar cheiro no meu carro, botei o saco no bagageiro e comecei a rodar, rodar, até que achei um lugar descampado numa coxilha, longe dali, na beira da rodovia. Coloquei as luvas novamente, abri o bagageiro, peguei o saquinho e caminhei lavoura adentro uns 50 metros, onde depositei o bicho. O saco estava suado pela respiração, o que indica que estava vivo, a pesar de não se mexer. Então fiz um furo no saquinho pra ele não se sufocar, e voltei pra casa. Acredito que fiz certo, né?

         Por instantes tive uma ilusória certeza de que, terminado o relato, alguém dentre os outros quatro radialistas iria dizer que ficara chocado com a atitude tão errada do homem, que optou por abandonar o bichinho ferido, ao invés de socorrê-lo. Na verdade, pensei até que pelo menos um deles iria convidar o contador da história para irem juntos ao local apanhar o animal e levá-lo ao veterinário. Até porque todos os participantes do programa eram pessoas formadas em curso superior, incluindo um ex-seminarista (que estudou pra padre).

         Que nada. Todos riram fartamente do relato, ainda caçoando em torno do nome do animalzinho (gambá) e sua vulgar relação com uma pessoa alcoólatra. Minha costumeira sesta do meio dia converteu-se então em uma profunda reflexão sobre a maldade humana. Convenci-me de que o egocentrismo, a falta de amor e a maldade são a própria essência do ser humano.

         Esse animal vivia em um mato próximo à casa do homem. Morava com sua família num oco de árvore ou numa toca, como nós, que vivemos com nossas famílias nas nossas casas. Tinha seu local de beber água e comer frutas. Todos as noites saía para isso. Foi caçado pelo cachorro porque se arriscou demais procurando comida perto da casa.

         É provável que fosse uma fêmea em amamentação, pois esta é a época do crescimento dos filhotes que resultaram do acasalamento da primavera. E a necessidade de comer para amamentar fala mais alto que o medo de um predador.

         Por que não chamou a polícia ambiental? Por que não levou o animal no veterinário? Aliás, nem precisaria pagar, era só pedir doações pelo rádio. Por quê? Porque é preciso ser cruel com a Obra da Criação. Assim é a natureza do ser humano. Ao invés de socorrer o irmão, o coloca em um saco e leva para longe. Longe do socorro médico, longe da comida, longe da água, longe da sua família de bichos, longe do olhar de um eventual bom samaritano.

         O bichinho está ferido. O homem sabe disso. Então é preciso fazê-lo agonizar em suplício solitário, lá bem longe, escondido. Vai ter febre, e sede. Muita sede, por dias a fio. Vai ter infecção, e muita dor. Vai ter muita larva de bicheira comendo sua carne ainda viva. Até à morte.

         E se for ver, as pessoas do programa de rádio conhecem de cor e salteado a parábola do bom samaritano. A história daquele camarada que encontrou um estranho ferido e o internou em um hospital por sua conta. É. Pagou do seu bolso o tratamento. E se for ver mais a fundo, tais pessoas dirão que seguem Jesus Cristo, que praticam o cristianismo. Arrisco dizer que o ex-seminarista também admira São Francisco, o santo irmão dos animais.

         Meu escrito não é contra esses radialistas, os quais até admiro e respeito em vários aspectos. É uma reflexão quase desesperada sobre a vida. Sobre o amor à vida. À nossa e dos outros.

Por Nilton Kasctin dos Santos (Professor e Promotor de Justiça)

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