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As experiências com animais e a ética da vida. Por Nilton Kasctin dos Santos
26/06/2021 18:16 em Opinião. Por Nilton dos Santos

Já publiquei um texto em que protesto contra a prisão de animais em jardins zoológicos, parques e gaiolas. E continuo pregando que é preciso acabar de vez com essa forma covarde de aprisionamento de seres vivos que sentem dor, tristeza, medo e solidão como nós, assim como é preciso acabar com a cultura nefasta e não menos covarde do comércio (legal) de animais para fins ornamentais.

         Baseado na mesma fundamentação ético-moral e depois de ter lido Peter Singer (LIBERTAÇÃO ANIMAL, 1ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2010, e ÉTICA PRÁTICA, [...] 2002), agora abordo o problema da utilização generalizada e indiscriminada de animais para testes científicos.

         A maioria das experiências científicas com animais não possui e nunca possuiu a mínima utilidade. Mesmo assim, milhares de cientistas pelo mundo afora continuam realizando os mais variados tipos de testes, que não passam de abomináveis práticas de tortura. E grande parte desses pesquisadores o fazem exclusivamente para ganhar dinheiro, pois só aprenderam a fazer isso na vida e é desse “trabalho” que precisam continuar recebendo seus salários, frequentemente pagos com dinheiro dos nossos impostos.

         Desde que foi inventada a bomba atômica, a Força Aérea Americana realiza testes de radioatividade e armas químicas com macacos. Em uma plataforma mecânica que simula um avião de guerra, é colocado um macaco adulto e saudável, amarrado no assento. Por cerca de 20 dias o animal sofre repetidas descargas elétricas até que aprenda a sentar corretamente. Por mais alguns dias, precisa aprender que só não leva choque se agarrar as alavancas de comando da “aeronave”. Quando já domina essa função, os choques continuam mesmo que se agarre à alavanca, agora para aprender que deve puxar o instrumento para trás, única forma de fazer com que parem as descargas por alguns instantes. Depois, para frente, para a direita, para a esquerda, e assim as sessões de tortura se repetem por muitos dias, e a cada erro do pobre animal os choques se tornam mais fortes. Mas ainda não começou o teste propriamente dito. Tudo isso é só para ensinar o macaco a “pilotar” um avião de guerra.

         Passada essa fase preliminar da experiência (que às vezes demora meses), em que os macacos recebem milhares de choques elétricos e inúmeros deles morrem em função disso, entra-se na fase do teste radioativo, que é o que interessa. No interior da cabine, então, é liberado certo grau de radioatividade, com a finalidade de estudar até que ponto um piloto de verdade pode continuar combatendo depois de sofrer um ataque nuclear. Assim, mesmo debilitado em razão da injeção de radioatividade na cabine, o macaco continua recebendo aquelas descargas elétricas, para que continue mexendo as alavancas de comando, pois só assim se sabe se ainda possui força física e coordenação motora.

         Relata Peter Singer que os macacos começam a vomitar, perdendo a destreza e a força assim que são submetidos à radiação, mas, como precisam continuar com a cruel atividade, agora recebem descargas elétricas mais fortes. Mesmo vomitando e cambaleando ofegantes, os animais continuam mais um pouco, empregando todo esforço para livrar-se dos choques. Mas agora recebem doses mais altas de radiação e descargas elétricas ainda mais fortes. Cerca de um dia depois da primeira exposição à radioatividade, neurologicamente desorientados, manifestando fraqueza extrema e tremores incessantes, os animaizinhos se prostram e morrem. Todos morrem.

         O cientista Donald Barnes, principal pesquisador da Air Force School of Aerospace Medicine, depois de ter matado dessa forma cruel cerca de mil macacos, se arrependeu e, tomado de remorso, pediu demissão da Escola Militar. Mas os testes continuaram. Barnes deixou escapar que na verdade nunca vira qualquer utilidade nas pesquisas, tendo até argumentado isso com o comandante geral da Escola, que se limitou a contra-argumentar que não via problema pois a sociedade não tem conhecimento da forma como são feitas as experiências (!).

         Barnes tem razão. Esse tipo de teste é realmente uma incomparável estupidez, pois não se pode esperar que um soldado continue combatendo após sofrer o primeiro ataque nuclear, e é muito provável que acabe a guerra por ali mesmo, junto com toda forma de vida planetária (continua em edição posterior).

Por Nilton Kasctin dos Santos (Professor e Promotor de Justiça)

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