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Bióloga encontra gato-palheiro-pampeano em Área de Proteção Ambiental do Ibirapuitã (RS)
02/12/2023 11:59 em Notícias
Foto: Luiza Nicolini de Simoni

No final de setembro, a bióloga Luiza Nicolini de Simoni estava a caminho de uma fazenda localizada na Área de Proteção Ambiental (APA) do Ibirapuitã, uma unidade de conservação federal localizada no Rio Grande do Sul. Ao longo do fim de semana que passava junto ao marido, encontrou um gato-palheiro-pampeano (Leopardus munoai) enquanto passeava de carro.

“Eu sempre costumo levar minha câmera, deixo sempre na mochila. Eu nunca levo ela em mãos. Nesse dia, eu decidi levar para tirar fotos da paisagem durante a viagem. A estrada é ruim e para não estragar o carro dirigimos bem devagar. Justamente no dia em que eu estava com a câmera nas mãos, vimos o gato passar”, conta Luiza.

Ela pedia para o marido parar o carro e, quando abriu a porta, o gato simplesmente se deitou, como se fosse posar para a foto. Foi o único registro feito dele. Não conseguiu tirar mais nenhuma porque quando se movimentou, ele deu um salto e saiu correndo.

Até perceberem que era um gato-palheiro, acharam que fosse apenas um gato doméstico. No entanto, só tiveram a confirmação ao retornar da viagem. “Eu só tive a certeza quando cheguei em casa. Talvez seja a primeira e a última vez que eu consiga fotografar, que eu consiga visualizar ele, por que é muito difícil, muito difícil mesmo”, completa.

Vai encarar?

Quando Luiza se aproximou para tirar a foto, o gato a encarou como comportamento de defesa. O responsável pelo projeto de conservação Felinos do Pampa e membro do Instituto Pró-Carnívoros, Felipe Bortolotto Peters, explica por que o felino demonstrou essa movimentação.

“Dentro da indisponibilidade de árvores ao longo dos campos, os gatos não fogem e não correm, eles ‘sentam’ e encaram os possíveis predadores. É uma forma de defesa interessante, na qual ele eriça o pelo e estica as patas traseiras para parecer maior do que realmente é, ao mesmo tempo em que protege a cabeça e os membros anteriores deixando-os contraídos rente ao corpo”, explica Felipe.

O pesquisador diz que um registro como esse é importante, visto que não se tem praticamente nenhuma informação sobre a espécie. “Até alguns anos atrás era bem difícil conseguir um registro dele vivo. A maioria dos nossos encontros eram com animais mortos por atropelados em rodovias.

“A partir de 2020, o projeto Felinos do Pampa começou a incentivar a prática da ciência cidadã e pessoas mais engajadas começaram a mandar fotos de encontros com animais vivos (como o registro da Luiza), no entanto, quase sempre eles estão em situações de ameaça eminente, seja na beira de estradas ou acuados por cachorros-domésticos”, explica Felipe.

 

Gato-palheiro-pampeano

Foto: Felipe Peters/Projeto Felinos do Pampa

A espécie é endêmica do Pampa, e ocorre na metade sul do RS, no Uruguai e na província de Corrientes, na Argentina. Não há informações precisas sobre sua ecologia, incluindo o habitat específico dele, no entanto, observações feitas pelo projeto demonstram a preferência por áreas campestres, com disponibilidade de gramíneas nativas.

“Temos de destacar que o Pampa é um bioma naturalmente apto para a pecuária semiextensiva, ou seja, onde o gado é criado solto em meio ao campo nativo. Assim, é possível associar a presença do gato-palheiro-pampeano a áreas onde ocorre a pecuária tradicionalmente aplicada no Pampa: sem pastagens plantadas, com presença de pastagens nativas, onde se vê a figura do gaúcho a cavalo e toda a tradição associada a este manejo”, explica o pesquisador.

De acordo com Felipe, o gato-palheiro-pampeano é uma espécie pouco estudada, o que dificulta a construção de estratégias eficazes para sua conservação.

Para suprir essa falta de informações, um estudo realizado pela bióloga Flávia Tirelli e colaboradores em 2020 utilizou modelos matemáticos de distribuição espacial para gerar estimativas de tamanho populacional que permitissem avaliar o status de conservação do animal com base nos critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês).

Os resultados de todas as estimativas indicaram que a espécie deva ser integrada a uma das categorias internacionais de ameaça, sendo que muitos resultados apontaram para a condição de “criticamente ameaçado”, o que representa a mais preocupante das situações.

As principais ameaças que incidem sobre o gato-palheiro-pampeano são a perda do habitat, os atropelamentos, a caça retaliativa (devido a predação de galinhas), a predação por cachorros domésticos e as doenças potencialmente transmitidas por animais domésticos.

“Existem poucos estudos. A raridade e a aparente baixa densidade são fatores que limitam a realização de estudos diretamente relacionados a espécie. A maioria das informações faz referência a registros isolados e, na maioria, tratam de espécies mortas por atropelamento, o que corrobora com as preocupações sobre sua conservação”, ressalta.

O gato-palheiro-pampeano pesa cerca de 4 kg e se alimenta, principalmente, de pequenos roedores e aves campestres. Além dele, existem outras quatro espécies de gato-palheiro e, dessas, apenas uma outra ocorre no Brasil: o gato-palheiro-do-pantanal (Leopardus braccatus).

Ele é encontrados nos biomas Pantanal e Cerrado, além do Paraguai e norte da Argentina. As outras três espécies L. garleppi, L. pajeros e L. colocola estão distribuídas pelo Equador, Argentina e Chile.

Vale lembrar que até dois anos atrás os gatos-palheiros eram reconhecidos como uma única espécie denominada Leopardus colocola, que se distribuía do extremo sul do Chile até o nordeste do Brasil e noroeste do Equador.

Foi só em 2021, que o biólogo Fábio Oliveira Nascimento e colaboradores reuniram evidências morfológicas e genéticas que embasaram a divisão do chamado “Complexo colocola” em cinco espécies diferentes.

 

Fonte: G1

 

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